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domingo, 19 de junho de 2016

Imprensa espanhola coloca Douglas próximo do Cruzeiro; agente confirma negociação

Cruzeiro vai pagar dois milhões de euros pelo lateral-direito, diz a imprensa local (Foto:Cristina Quicler/AFP)

Por Gustavo Aleixo

O Cruzeiro está muito próximo de acertar a contratação de um jogador do Barcelona para a sequência do Brasileirão. Trata-se do lateral-direito Douglas, que está fora dos planos do clube catalão para a próxima temporada.
Neste domingo, os jornais Sport e Mundo Deportivo noticiaram que o Cruzeiro fez uma proposta de dois milhões de euros (cerca de R$ 7,7 milhões) pela compra de 60% dos direitos econômicos do jogador. O lateral, que tem contrato até junho de 2019 com o Barça, assinaria acordo de cinco temporadas com o clube celeste.
Segunda ambas as publicações, já existe um acordo entre os clubes, contudo, a negociação ainda depende de uma resposta afirmativa de Douglas para que seja confirmada. O grande obstáculo para a concretização da transação encontra-se no desejo do jogador permanecer na Espanha. Nos últimos dias, a imprensa local noticiou o envolvimento do lateral numa troca com Sevilla pelo também brasileiro Mariano.
Douglas chegou ao Barça em agosto de 2014, mas pouco atuou (Foto: Josep Lago/AFP)
Douglas chegou ao Barça em agosto de 2014, mas pouco atuou (Foto: Josep Lago/AFP)
Intermediário da negociação, o empresário André Cury confirmou as tratativas, mas destacou que, por ora, as equipes ainda estão discutindo a transferência do jogador. “Sou eu (que está à frente das negociações). Mas não tem nada certo ainda”, disse o agente ao Blog Sem Firula F.C.
Procurado pela reportagem, o diretor de comunicação do Cruzeiro, Guilherme Mendes, assegurou que nenhum dos dirigentes celestes se encontra na Europa neste momento e manteve a filosofia do clube de não comentar sobre movimentações de mercado.
Douglas, de 25 anos, chegou de forma inesperado ao Barcelona em agosto de 2014, quando o clube catalão pagou por 4 milhões de euros (aproximadamente R$ 12 milhões) pelo jogador junto ao São Paulo. Revelado pelo Goiás, o lateral-direito, que vem sendo alvo de constantes críticas da imprensa local, atuou apenas oito vezes pelo Barça desde que foi contratado, sendo apenas três destas partidas pela Liga Espanhola.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Pisano se acerta com o Independiente e chega nesta sexta ao Cruzeiro

Pisano é quinto reforço do Cruzeiro para 2016 (Independiente/Divulgação)

Por Gustavo Aleixo


O argentino Matías Pisano é o novo reforço do Cruzeiro e chegará nesta sexta-feira a Belo Horizonte para assinar vínculo com o clube celeste. O agente do jogador de 24 anos, Ezequiel Manera, confirma a informação.

Em contato com a reportagem do Blog Sem Firula F.C., o agente confirmou a negociação e afirmou que Pisano assinará contrato por três temporadas com a Raposa. Segundo Manera, Pisano abriu mão da rescisão contratual com o Independiente, ficando livre para fechar com o Cruzeiro.

Segundo a imprensa argentina, o armador teria direito a receber 250 mil dólares (cerca de R$1 milhão) do clube portenho. Para contratar Pisano, o Cruzeiro adquiriu 50% dos direitos econômicos do jogador junto ao Independiente por 900 mil dólares (aproximadamente R$ 3,6 milhões).

Os valores da negociação envolvem o abatimento da dívida do Independiente com o clube mineiro (cerca de R$ 2,7 milhões) pelo não pagamento dos salários do atacante Ernesto Farías, emprestado pelo Cruzeiro aos Rojos entre 2012 e 2013.

Matías Pisano foi revelado pelo Chacarita Juniors – ainda dono de 50% dos direitos do atleta –, onde atuou de 2008 até 2013 até assinar pelo Independiente. Pelos Rojos, o jogador disputou 99 partidas e marcou sete gols. O veloz meia de 1,66 metros de altura atua caindo pelo lado direito e foi descrito por seu agente como um “enganche” – alcunha dada aos tradicionais camisas 10 argentinos.

Além de Pisano, o Cruzeiro já acertou as contratações do volante argentino Sánchez Miño, do meia Bruno Nazário, e dos atacantes Rafael Silva e Douglas Coutinho. Estes dois últimos serão apresentados oficialmente na tarde desta quinta-feira.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Jornal argentino aponta Cazares “apalavrado” com o Galo; Meia cita interesse do Cruzeiro

Na mira do Atlético-MG, Cazares afirmou que o Cruzeiro também mostrou interesse em sua contratação (Banfield/Divulgação)

Por Gustavo Aleixo


Atlético-MG e Cruzeiro prometem fazer um clássico fora das quatro linhas pelo meia equatoriano Juan Cazares, de 23 anos, que atualmente defende o Banfield, da Argentina. Nos últimos dias, o nome do jogador tem aparecido com frequência no noticiário atleticano, porém, o armador, em entrevista à Rádio La Deportiva, do Equador, afirmou que o clube celeste também manifestou interesse em sua contratação.

“Também tem o Cruzeiro. Estou em férias, e ainda não estou vendo isso. Há sim (opções). Mas ainda não tem nada de concreto”, disse o armador.

Apesar de Cazares afirmar que o Cruzeiro também está de olho em seu futebol, o meia equatoriano já estaria apalavrado com o Atlético-MG. É o que informou, nesta terça-feira, o jornal argentino Olé, que define como avançadas as negociações entre o Banfield e o Galo.

“Na cabeças dos dirigentes do Talandro (como é chamado o Banfield) o único tema que importa no momento é Juan Cazares. O Atlético Mineiro (onde joga Lucas Pratto) vem com tudo pelo equatoriano. O clube brasileiro negocia com a diretoria do Banfield, que tem 50% do passe do jogador, e o quer o quanto antes. Além disso, a situação está muito avançada, já que entre o atacante e o Galo existiria um acordo verbal”, coloca o jornal argentino.

Apalavrado ou não com o Atlético-MG, o jogador equatoriano está no meio de um imbróglio entre sua atual equipe e seu clube formador, o Independiente del Valle, do Equador. Isto, porque as diretorias de ambas os times afirmam serem donas da maior parte dos direitos econômicos de Cazares.

Segundo a cúpula do clube equatoriano, Cazares está apenas emprestado ao Banfield. Já a diretoria do time argentino afirma ter exercido o direito de compra do armador ao final deste ano, o que, inclusive, complicaria bastante a transferência do meia para o Atlético-MG.

Jornal argentino Olé afirmou que Cazares tem um acordo verbal com o Atlético-MG (Reprodução)

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Agente confirma acordo verbal entre Cruzeiro e Atlético-PR por Douglas Coutinho

De acordo com Taciano Pimenta, empresário do atacante, o negócio será definido na próxima segunda; jogador, de 21 anos, chegaria por empréstimo de um ano ao Cruzeiro

Douglas Coutinho conviveu com leões em 2015 e não fez uma boa temporada pelo Atlético-PR (Gustavo Oliveira/CAP)


Por Gustavo Aleixo


O Cruzeiro deve confirmar o primeiro reforço da “Era Deivid” na próxima segunda-feira. Trata-se do atacante Douglas Coutinho, de 21 anos, que atualmente está no Atlético-PR. Em contato com a reportagem do Blog Sem Firula F.C., o empresário do jogador, Taciano Pimenta, afirmou já existir um acordo verbal para que o atleta seja emprestado por um ano ao clube celeste.

“Nós falamos com Renato Duprat (representante da Doyen Sports, fundo de investimento que comprou o jogador em 2014) sobre o interesse do Cruzeiro. A gente precisa compor as partes, no caso o Atlético-PR, a Doyen Sports e o atleta, mas nós praticamente chegamos a um acordo”, confirmou.

De acordo com Pimenta, o negócio só não foi finalizado, porque será realizada, neste sábado, a eleições para novo presidente do Atlético-PR. O empresário, contudo, garante que a mudança na presidência do clube não irá mudar o rumo das negociações, já que o atual mandatário atleticano, Mário Celso Petraglia, permanece no comando do Furacão até o fim do ano.

“O negócio só não evoluiu em virtude das eleições do Atlético-PR. O presidente pediu para esperar segunda feira para definirmos alguns detalhes. (A eleição de um novo presidente) Não muda nada não, porque quem ganhar a eleição amanhã assume em janeiro. O Douglas (Coutinho) não fica no Atlético no ano que vem, já está definido. Agora é esperar a segunda-feira para finalizarmos o negócio”, ressaltou.

Douglas Coutinho defendeu a seleção
brasileira sub-21, em 2014
(Arquivo Pessoal)
Douglas Coutinho surgiu bem na temporada passada, principalmente no Brasileirão, quando marcou sete gols em 28 jogos pelo Atlético-PR na competição. O bom desempenho fez com que a Doyen Sports pagasse 4,5 milhões de euros (15 milhões de reais na época) por 70% dos direitos econômicos do atacante.

O desejo do fundo de investimento era que o jogador deixasse de imediato o Atlético-PR, no entanto, Douglas permaneceu em Curitiba após receber um aumento salarial no clube paranaense. O investimento, contudo, não deu resultado na atual temporada, tendo em vista o desempenho ruim do atacante, principalmente no Campeonato Brasileiro, onde marcou apenas dois gols.

“Quando ele foi vendido para a Doyen Sports, ele já ia sair de imediato, mas o Atlético pediu para que ele ficasse, houve uma valorização, aumento de salário e ele ficou satisfeito, feliz. Só que, infelizmente, o Douglas teve muitas lesões, não teve uma sequência boa e o ano não foi proveitoso. Mas, já era esperado pelo fundo, que comprou o jogador, e pelo Atlético-PR que ele não ficaria para o próximo ano”, colocou Taciano Pimenta.

Se Douglas Coutinho recuperar seu futebol no Cruzeiro, e a diretoria celeste resolver comprar o jogador em definitivo, o clube celeste terá que abrir os cofres. Segundo Pimenta, o atacante tem contrato até julho de 2017 com o Atlético-PR e possui uma multa rescisória avaliada em 10 milhões de euros (aproximadamente R$ 42 milhões).

terça-feira, 7 de julho de 2015

Oscar, eu não teria feito aquele gol

Até que ponto um gol pode ser considerado "de honra"? (Foto: Esporte UOL)


Por Gustavo Aleixo

       Não, eu não teria feito aquele gol. Na pontiaguda e vexatória goleada sofrida pelo Brasil para Alemanha, por 7 a 1, o gol brasileiro soa como o golpe mais profundo e cruel. Os papéis pareciam invertidos. Quem visse o lance, de maneira isolada, acharia que o Brasil passeava em campo, diante de uma Alemanha abatida, sem forças para impedir que o meia Oscar balançasse as redes de Neuer. Mas o que bem sabemos é que o gol brasileiro, solitário e melancólico, contou com as condolências, diplomáticas eu diria, de uma superior seleção alemã.

       Pouco antes de Oscar finalizar, podia-se dizer que ainda resistia – por que não? – algum lastro de dignidade naquela tragédia. Mas aquele gol, dado de forma tão fácil e constrangedora pela Alemanha, seria o trauma final. Assim que o camisa 11 chutou, o que restava do orgulho tupiniquim viria a morrer segundos depois, aprisionado nas redes daquele mitológico Mineirão. Um desfecho com contornos irônicos, fúnebres até, após um martírio de gols germânicos. O gol brasileiro, aos impiedosos 45 minutos do segundo tempo, poderia não ter existido. Não faria falta alguma.
Oscar precisou ser consolado pelos jogadores alemães ao final da partida (Foto: The Independent)
       Oscar teve a melhor das intenções. Mas, naquela segunda-feira, eu não queria ser Oscar. Muitos menos nesta quarta-feira. O meio-campista poderia passar desapercebido daquela tétrica derrota. Seu futebol eficiente – nada além do normal – e sua timidez adolescente eram seus trunfos. O jogador mal aparecera nos gols alemães. Não seria um alvo. Sem aquele gol, eu repito, passaria desapercebido. Não integraria o grupo, ora composto por Júlio César, Marcelo, David Luiz, Dante e Fernandinho.

       Que fique claro, Oscar não é vilão. Mas é certo que ele poderia não ter feito aquele gol. Se chutasse para fora, estaria livre. Mas sua fleuma e obediência britânicas, recebidas no Chelsea, o conduziram. A regra mandava, e ele não hesitou, “foi lá e fez”.

Oscar e Felipão: eternizados por motivos diferentes (Foto: Esporte UOL)
       Jamais houve tamanha desonra no famigerado “gol de honra”. Oscar comprou a sua passagem para a eternidade, mas não da maneira que ele queria.  Você pode até questionar e dizer que ele tentou fazer o certo. Mas nem sempre o certo é o certo. O gol de Oscar, assim como os sete da Alemanha, tem data para ser reprisado e relembrado: 8 de julho. Daqui até vários e vários anos, veremos alemães comemorando. Diversas vezes. E veremos, também, Oscar buscando, cabisbaixo, a bola nas redes de Neuer.

       Oscar poderia ter passado desapercebido, porém, naquela “briga de bar” entre Brasil e Alemanha, ele tentou apartar, mas acabou recebendo um golpe imerecido, talvez. Tal como aquele curioso, que entra sem querer na cena de um crime, antes que a perícia chegue, Oscar deixou a sua marca. Deixou suas digitais no 7 a 1. Tudo por causa daquele gol.

Abaixo o gol "de honra" marcado por Oscar



terça-feira, 31 de março de 2015

“Futebol moderno”: o brasileiro está longe de ser o que eles praticam


Fonte: Yahoo Esportes



Por Gustavo Aleixo


O árbitro apitava o fim do jogo. Sem pestanejar, eu desligava a televisão e seguia para o meu quarto sabendo que, no dia seguinte, me arrependeria de não ter me deitado mais cedo. Consequência comum a quem se arrisca a ver uma peleja daquelas em uma noite de quarta-feira.
Inconformado pelo que vi e com os olhos inchados, resultado de tamanha mediocridade em campo, eu bem que te tentei dormir. Não consegui. Calos em meus olhos me impediam de fechar as pálpebras, enquanto ideias borbulhantes invadiam a minha mente, pedindo espaço para uma reflexão em plena madrugada.
Com um olhar saudosista e uma audácia sem tamanho, me relembrei de alguns textos de Mário Filho e Nélson Rodrigues que havia lido recentemente. Me fiz a seguinte pergunta: Como aqueles poetas, acostumados ao primor da arte, transformariam o futebol atual em poesia?
Como estes nobres senhores poderiam traçar finos versos sobre nosso futebol extremamente tático, nossos atacantes que marcam na defesa, mas não marcam gols?
Quem sabe algumas palavras sobre números e estatísticas? Uma ode aos nossos torcedores de teatro, que assistem aos jogos sentados, bradando hinos na segunda pessoa do singular? Talvez algo sobre “a bola parada que decide jogos”?
Mário Filho e seu irmão Nelson Rodrigues vivenciaram o modernismo brasileiro, movimento artístico que influenciou a sociedade brasileira na primeira metade do século XX. Por sorte, Mário e Nelson não tiveram o desprazer de vivenciar a tal modernidade que, hoje, atinge o futebol brasileiro.
Na conjuntura atual, não existe uma tentativa de aliar os ensinamentos europeus aos valores tupiniquins. Existe sim, uma cópia fajuta daquilo que foi visto por nós durante a Copa do Mundo de 2014.

A maior tragédia do futebol brasileiro: a derrota por 7 x 1 para Alemanha, na Copa de 2014
(Fonte: Ovácion Uruguay)
Daí você, meu caro leitor, pode dizer que existem muitas coisas positivas no futebol moderno. Eu concordo. A questão é que nós brasileiros só vemos o quão mal estamos quando, finalmente, o destino resolve nos mostrar que estamos seguindo a direção errada – olha aí os 7 x 1. Pior que isso. Nós somos uma representação fiel daquele aluno ordinário que decide aprender alguma coisa apenas quando a corda lhe aperta o pescoço. Foi assim que “aprendemos” algo sobre o futebol moderno.
Hoje fala-se muito em obediência tática, compactação, mas estamos esquecendo que tais questões são meros complementos. É assim que funciona na Europa. Nós, por outro lado, suplantamos o talento e fazemos do secundário algo primordial.
Um bom exemplo são os tão louvados atacantes que voltam até a linha de fundo contrária para marcar. Não haveria nada de errado nisso se, por acaso, este jogador cumprisse o seu papel principal: criar jogadas, marcar gols.
Sabemos que isso não acontece e que muito provavelmente um atacante talentoso – que não marca tanto – ocupará um lugar no banco de reservas. A equipe jogará com laterais que não avançam tanto, um camisa 5 “cão de guarda” no meio-campo, mas ainda assim será aquele companheiro esforçado que atuará no comando de ataque. E ai se quem estiver de fora reclamar!
Neste momento, me vem à cabeça uma das grandes reclamações da mídia brasileira: onde está o nosso bom é velho camisa 10? Eu prontamente respondo: ele está marcando e não armando. Me parece que a própria semântica dos termos queira me dizer algo – no futebol moderno, o clássico camisa 10 já não existe mais. Talvez eles ainda existam, mas eles certamente estão cedendo sua numeração para um volante que marca e sai para o jogo. Quem sabe este seja o caminho para que os nossos craques celebrais de outrora sigam atuando em nossas canchas.

Futebol moderno x Camisas 10 clássicos (Fonte: Globoesporte.com)

Também me parece curioso que, ao final da Copa de 2014, muitos jornalistas pediam uma reinvenção na maneira de desenvolvermos as qualidades dos nossos jovens jogadores. Mas se você perguntar para qualquer treinador da base sobre a sua filosofia de formar atletas, muito serão categóricos e dirão que valorizaram primeiramente o talento, trabalhando em segundo plano aspectos táticos e físicos. Daí eu me pergunto: Onde está o nosso erro? Porque ainda estamos chafurdando na mediocridade mesmo após a maior tragédia do nosso futebol?
A verdade é que estou no aguardo do momento em que nossos goleiros serão obrigados a se tornarem Neuers – mas da maneira errada – sendo avaliados primariamente pela qualidade com as bolas nos pés e não mais pelo talento em defender os arremates dos adversários.
Paciência. É como dizia Nelson Rodrigues: “Na vida, o importante é fracassar”. Espero, então, que possamos seguir fracassando até o momento que deixemos de ser aquele aluno que se dedica apenas no final, mas que na verdade não aprende nada.




sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Dupla Afiada



Titulares da base do Cruzeiro, Eurico e Bruno Edgar se completam em campo e
prometem manter a tradição de bons volantes formados no Clube

Por Gustavo Aleixo


Fotos: Bruno Senna
Há quem diga que eles são os motores da equipe júnior do Cruzeiro. Tal como o freio e o acelerador, são complementares. Eurico, de 19 anos, primeiro volante, é a cadência, o equilíbrio. Bruno Edgar, também de 19, segundo volante, é a saída em velocidade, o elemento surpresa.

Dentro de campo, os números 5 e 8 de suas camisas somam não apenas qualidade, mas também muitos títulos para a base cinco estrelas. Seguindo o caminho de volantes campeões revelados pelo Clube celeste, como Douglas e Ricardinho, Bruno e Eurico esperam levar para o profissional a parceria que tem feito tanto sucesso na equipe sub-20 da Raposa.

Como foi a trajetória de vocês até chegar onde estão?

Eurico:
Nasci na zona rural de Santa Luzia, região metropolitana de Belo Horizonte. Tive uma infância complicada pela situação financeira da minha família e também porque eu tinha várias crises de bronquite. Morava em um bairro mais afastado e de madrugada era aquela correria para chamar alguma pessoa que tivesse carro para me levar ao hospital. Jamais esperaria ter o reconhecimento e a saúde que tenho hoje.

Bruno Edgar: Minha infância foi toda na periferia de Salvador e foi muito difícil. Quando era menor, cheguei a fazer taekwondo. Eu tinha talento, cheguei à faixa verde e fui vice-campeão baiano, mas logo depois tive que escolher entre o futebol e as artes marciais. Pensando em ajudar minha família, escolhi o futebol.
Tantos desafios na infância trazem ainda mais valor à caminhada de vocês, não é mesmo?

E: Antes de chegar ao Cruzeiro, em 2008, eu treinava no Colégio Magnum. Eu e meu pai sofríamos muito porque não tinha um ônibus que nos levava para o bairro de Peões [em Santa Luzia], onde moro. O treino era tarde e o último [ônibus] era o das 22h. Às vezes, perdíamos o ônibus e tínhamos que andar oito quilômetros a pé.

B: Comigo foi bem parecido. Quando jogava no Bahia, minha mãe dava todo o dinheiro dela para eu pagar o transporte e, às vezes, eu tinha que pegar três ônibus. Pegava só dois e ia a pé até o centro de treinamento para devolver o dinheiro para ela. Deixei de ir ao treino várias

vezes porque faltou dinheiro.

Quais sãs as suas características dentro e fora de campo?

E: Gosto mais dessas coisas caipiras mesmo, como jogar truco, escutar música sertaneja. Em campo, meu estilo é parecido com o do Lucas Silva, marcando bem, distribuindo bem a bola e finalizando com qualidade de fora da área. Também gosto de conversar individualmente com meus companheiros, procurando passar energia positiva e liderar do meu jeito.

B: Sou extrovertido, mas sério dentro de campo. Atuo como um segundo volante que chega como elemento surpresa e a minha principal virtude é a velocidade.


Quais são os seus ídolos?

E: Me espelho no Luiz Gustavo [volante do Wolfsburg e da Seleção Brasileira], que é um cara
discreto dentro de campo, mas que cumpre muito bem a função dele. É um cara que todo mundo confia.

B: Eu vejo muito o Ramires [ex-Cruzeiro, jogador do Chelsea e da Seleção] jogar. É um cara muito humilde fora de campo e, dentro das quatro linhas, é um volante excepcional.

Vocês já treinaram na equipe profissional do Cruzeiro. Como foi essa experiência?

E: Foi muito bacana, até mesmo para eu voltar ainda melhor para o júnior e seguir atrás de vaga em definitivo no profissional.

B: Cheguei a ser relacionado para uma partida do Campeonato Mineiro, contra o Villa Nova. A primeira impressão que tive no Mineirão foi aquele calor da torcida vindo das arquibancadas. Assusta no início, depois você vai se acostumando. Foi, sem dúvida, uma grande experiência.

Como é ser um jogador do Cruzeiro? A fama sobe à cabeça?


B: O cara que nasce na favela não pode se esquecer das suas origens. Não é porque sou jogador do Cruzeiro que posso esquecer o que eu era. Quando vou para Salvador, passo na casa de todos, ando descalço, sem camisa, empino pipa, sempre mantendo a humildade.

E: É bacana. O pessoal te olha diferente, te respeitam mais. Tem que saber lidar com essa situação, não pode deixar subir a cabeça. Nesse ponto, humildade, educação e respeito são essenciais para que você vá longe na carreira.





** Matéria publicada originalmente na edição 121 da Revista do Cruzeiro

domingo, 29 de setembro de 2013

Rupturatotaldomúsculoadutordacoxaesquerda



Ramon Bitencourt/GazetaPress


Agonia, esquimose, desconforto. Fora do returno.

O final de ano que podia ser e que não será.
Dores, dores, dores.

Mandou chamar o médico:
- Diga grau três.
- Grau três...grau três...grau três...
- Transpire.

- O senhor tem uma ruptura total do músculo adutor da coxa esquerda.
- Então, doutor, não é possível jogar o Mundial?
- Não. A única coisa a fazer é gritar: “Eu acredito!”

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Primeira de Muitas



Há 20 anos, com a conquista da Copa do Brasil, Cruzeiro afirmava
sua tradição copeira e dava início à hegemonia
celeste na competição


Por Gustavo Aleixo



Nas páginas heroicas e imortais celestes, uma competição merece um capítulo a parte. Com quatro títulos, o Cruzeiro é, ao lado do Grêmio-RS, o clube que mais vezes conquistou a Copa da Brasil. E foi justamente sobre o time gaúcho que a Raposa há 20 anos levantava pela primeira vez o troféu do mais tradicional torneio eliminatório do Brasil. Era o ano de 1993 e o clube estrelado disputava mais uma Copa do Brasil buscando afirmar em uma competição nacional a alcunha que começava a ser associada ao Maior de Minas: time copeiro.

“Costumo dizer que uma copa é diferente. Você tem que estar muito mais concentrado, porque são jogos eliminatórios. O Cruzeiro pegou gosto por esse tipo de torneio ganhando a Supercopa em 1991 e 1992, o que ajudou muito para que entrássemos na Copa do Brasil mais preparados”, lembra o ex-zagueiro celeste Célio Lúcio, que hoje é auxiliar técnico da equipe júnior da Raposa.

Com um time que unia jovens formados no clube, como Célio, e atletas experientes, o Cruzeiro não deu chances às outras equipes. Eliminando a Desportiva-ES, o Náutico-PE, o São Paulo, que seria o campeão da Libertadores daquele ano, e o Vasco da Gama-RJ, o Cruzeiro chegava a sua primeira final da competição para enfrentar o Grêmio.

O adversário já tinha história no torneio – foi campeão em 1989 e dois anos depois perdeu o bicampeonato para o Criciúma-SC por conta de um gol sofrido dentro de casa. Se isso não bastasse, em 1993 o Grêmio contava ainda com a presença de um talentoso craque no meio-campo. “O Dener era um baita jogador, muito nos moldes hoje do Neymar. Neutralizamos o futebol dele, o que foi importante para conseguirmos segurar o empate no Olímpico”, diz o defensor, que revela ter trocado de camisa com Dener: “Minha irmã guarda ela até hoje lá no interior”.



Naquele primeiro jogo, o goleiro celeste Paulo César foi o nome da partida. Em meio a uma forte chuva e a um bombardeio gremista, o arqueiro segurou o 0 a 0, garantindo uma boa vantagem para a segunda partida, no Mineirão. Uma vitória simples bastava para que a Raposa levantasse a taça. Para o jogo decisivo, o Cruzeiro não pôde contar com o zagueiro Luisinho, suspenso.  Da equipe júnior, foi chamado às pressas o beque Róbson, que logo em sua estreia nos profissionais ganharia seu primeiro título.


A vitória cruzeirense começou a ser construída pelo sempre decisivo Roberto Gaúcho, que, mesmo ardendo em 40º de febre, abriu o placar em um frangaço do goleiro Eduardo Heuser. Quatorze minutos depois, o volante Pingo empatou a partida e as equipes desceram para os vestiários em igualdade.

O segundo tempo era o tira-teima e o centroavante Cleisson, de cabeça logo no primeiro minuto, marcou pela sexta vez na Copa do Brasil aquele que seria o gol do título. “O Paulo Roberto cruzou bem muito bem. Eu estava no meio dos zagueiros e consegui fazer de cabeça. Aquele gol foi uma emoção muito grande para mim. Foi importantíssimo para a minha carreira, para eu ganhar confiança e me firmar ainda mais no Cruzeiro”, conta o herói do título, também formado no Clube.

Depois do gol, o Grêmio foi todo pressão. Porém, sob os olhares de mais de 70 mil pagantes, os jogadores cruzeirenses honraram as cinco estrelas no peito e seguraram o resultado. Quando o árbitro Renato Marsigila apitou o fim de jogo, o Mineirão explodiu em azul e branco. “Foi uma alegria muito grande no vestiário. Estavam todos lá, inclusive o presidente César Masci. Saímos no caminhão do Corpo de Bombeiros para a Avenida Afonso Pena, que estava tomada de torcedores. Quando converso com amigos sobre esse tempo fico muito feliz”, recorda Cleisson, que conquistaria, juntamente com Célio Lúcio, o bi da Copa do Brasil, em 1996.

*Matéria originalmente publicada na Edição 119 da Revista do Cruzeiro

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Mamma África

   
       Com um passado de superação, o camaronês Arnold agora só pensa em brilhar
com a camisa do Cruzeiro e trazer sua família para o Brasil 

Por Gustavo Aleixo




Fotos: Bruno Senna


Sobre seus olhos, ela adormece. Imóvel, aquela bola podia ser o mundo do garoto que dirige seu olhar para onde tudo começou. Camaronês, Arnold Gaston Meveng, de 17 anos, é mais um filho da África. A bola, que agora ele domina com primazia, sem deixá-la cair, nada mais é que uma metáfora para um menino africano que, como tantos outros, nasceu pobre e teve que se equilibrar em uma corda bamba, amarrada entre um presente cruel e um futuro repleto de incertezas. 

Ao lado de seis irmãos e três irmãs, a vida em Yaoundé, capital camaronesa, escancarava uma realidade repleta de mazelas, comuns a um continente que ainda exibe a olhos vistos as cicatrizes de um abandono quase que total. Naquela curta infância, o futebol jogado nas ruas era uma anestesia para o garoto que desde cedo deixou de ser criança para se tornar homem.

Talentoso, a bola lhe caíra bem. Com a sua perna esquerda, as peladas disputadas sob o forte sol africano lhe dariam a primeira chance de mudar o seu destino. Aos 11 anos, ele saiu de seu país para buscar reconhecimento em terras distantes. O caminho apontava para a cidade de Palma de Mallorca, na Espanha, onde ele passaria a treinar nas categorias de base do Mallorca, equipe que anos depois revelaria para o mundo o maior ídolo africano de Arnold: o compatriota Samuel Eto’o. “É um cara que quero seguir não apenas em campo, mas também nas atitudes e no comportamento. O Eto’o é um exemplo para a África e está sempre ajudando as pessoas em Camarões”, revela.

A sorte que Eto’o teve no clube espanhol não foi a mesma de Arnold. Ainda muito jovem, o garoto teve seus sonhos frustrados e voltou para seu país. No entanto, o retorno à África seria breve. “Um empresário, Fabrício Zanello, me viu jogar um campeonato em Camarões. Ele gostou do meu futebol e me trouxe para o Olé Brasil [equipe de Ribeirão Preto-SP]. Quando cheguei ao Brasil pensei: ‘Que país maravilhoso!’”

A alegria logo se transformou em hesitação. Passados quatro dias no Brasil, Arnold adoeceu. Sem saber falar português, ele teve medo, mas voltar para a África já não era mais uma opção. “Liguei para a minha mãe falando que eu queria ir embora. Meu pai disse que não. Falou como era a situação lá em Camarões e que eu tinha que ficar”, relembra.

Assim, Arnold teve que aprender a se comunicar. Na companhia dos brasileiros, as primeiras palavras pronunciadas não orgulham muito o garoto africano. “O que aprendi primeiro foram os palavrões [risos]. O pessoal brincava muito comigo, falava que eu só xingava. Mas com a ajuda da internet, da televisão e dos meus companheiros, fui me adaptando. Até sambar eu já sei [risos]”, conta ainda em um português cheio de sotaque. Ambientado ao novo país, Arnold se destacou no Olé Brasil e acabou chegando ao Cruzeiro em novembro de 2010. Depois de William Andem, goleiro camaronês que defendeu a meta celeste entre os anos de 1994 e 1996, o Maior de Minas voltava a contar com um jogador africano. 

Desde a sua chegada, a agora jovem promessa estrelada vem evoluindo, já tendo sido convocado para as equipes sub-17 e sub-20 dos Leões Indomáveis, apelido emblemático da seleção de Camarões, que também traduz muito bem o futebol de Arnold em campo. Dentro das quatro linhas, o jogador, que carrega nos punhos as cores de Camarões, mostra suas presas e demarca seu território não apenas como um rápido lateral-esquerdo, mas também em outras posições, como volante e meio-campista. 

Tendo como tutores no Brasil os técnicos da Raposa e em Camarões ninguém menos que Roger Millar, maior ícone do futebol camaronês, Arnold, hoje titular da equipe juvenil celeste, quer um dia trazer sua família para Belo Horizonte e pôr fim à distância que ainda o incomoda muito. “Converso com meus pais três vezes por semana pela internet, mas é sempre algo difícil. A internet em Camarões não é barata. Eles vão à lan house e pagam caro para conversarem comigo”, ressalta.

Para ter sua família por perto, Arnold quer seguir mudando seu destino. De uma infância pobre em Camarões, ele já mudou bastante coisa em sua vida. Com o sorriso no rosto de quem encara as dificuldades como um rito de passagem para dias melhores, o jovem craque rascunha nos gramados o conto de um menino que podia estar esquecido na África, mas que agora quer marcar seu nome na história do Cruzeiro e ser lembrado por toda uma Nação Azul.

*Matéria originalmente publicada na Edição 119 da Revista do Cruzeiro

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Muro da Esperança



Sob o olhar atento dos pais, jovens vindos de diferentes regiões do Brasil
participam de testes na Toca da Raposa I
para realizarem o sonho de se tornarem jogadores de futebol
Por Gustavo Aleixo




Fotos
: Bruno Senna 

Durante todo o ano, o Cruzeiro realiza vários testes na Toca da Raposa I para atrair novos jogadores que, no futuro, poderão ostentar a camisa estrelada no time profissional. Para isso, o Maior de Minas sempre está de portas abertas, dando a chance para atletas que não foram descobertos pelos observadores técnicos do Clube mostrarem suas qualidades. 

Participam desse primeiro processo, jovens inscritos no site do Clube e que atuam em escolinhas de futebol, estudam em alguma instituição de ensino e que estão aptos, sob atestado médico, à prática esportiva. Aprovado, o atleta passará por outras duas seleções para se tornar jogador do Cruzeiro. Assim, a Raposa mantém a qualidade com que capta promessas para as categorias de base.

Sonhos à prova

Na casa de muitos garotos que batiam à Portaria 2 da Toca da Raposa I, aquela terça-feira de forte calor significava um dia que já estava marcado no calendário. Era a seletiva para as categorias pré-infantil e infantil, o começo de um sonho que muitos meninos alimentam desde pequenos: ser jogador de futebol.

Um a um, os atletas se apresentavam. Rápida checagem do nome e eles adentravam o lugar onde vários craques entraram desconhecidos e saíram rumo ao estrelato. Alguns não se contêm e, em um ligeiro rolar de olhos, miram o gramado, talvez construindo em pensamento a melhor forma de mostrar o seu valor. Era apenas o primeiro de três dias de avaliação. Duas horas diárias de treinos, que passaram velozes, principalmente à vista daqueles que não podiam entrar para incentivar e apoiar seus filhos.

Atrás dos muros, pais ignoravam a recomendação de que não fossem à Toca I. Alguns subiam no primeiro objeto que viam, outros ficavam em cima da garupa da moto e tinha até quem se equilibrava sobre duas tábuas cuidadosamente colocadas sobre uma enferrujada lata de tinta. Tudo isso para ver, em um camarote dos mais improvisados, a que pé andava aquele teste. Dentre eles, um chamava atenção. Ele espiava, como uma criança que olha pela fechadura, o que se passava do outro lado. Era o Seu Adalberto Celestino que veio de Ribeirão das Neves, na região metropolitana de Belo Horizonte, para ver seu filho Victor, de 15 anos, tentar uma vaga como atacante da Raposa. Uma fantasia que diz ser dele também.

De olho: Adalberto observa seu filho em campo
“Quem não quer jogar no Cruzeiro? Sempre tive vontade de jogar bola, mas nunca tive a oportunidade que ele está tendo. É o sonho de um pai que se realiza pelo filho. Todo lugar que ele vai, eu vou. Largo o meu serviço para ficar com ele, como pai tenho sempre que ajudar meu filho.  A gente fica com as pernas bambas. É como se fosse uma final de um campeonato isso aqui”, diz o senhor, que, mesmo no auge dos seus cabelos brancos, não esconde a emoção ao ver Victor entrar em campo.

“Conversa com esse aqui. Ele veio de longe”, grita um rapaz. Desce do muro, então, um sujeito de jeito simples, de fala arrastada e tranquila. Maurício Roberto dos Santos veio de Mogi Guaçú, município paulista a pouco mais de 160 quilômetros da capital, na esperança de ver o filho Guilherme, de 14, se tornar lateral-direito do Cruzeiro. ”Foram nove horas de viagem. Vim no escuro, me perguntando o que eu estava fazendo, onde estava levando meu filho”, relembra Maurício.


Para pai e filho, batalhar por cada oportunidade tem sido importante. Com o apoio de toda a família, o garoto já participou de outros testes, mas ainda não obteve sucesso. No entanto, a ajuda jamais cessou. “Tem cinco anos que nós corremos atrás. Todo mundo lá na cidade ajuda. É ‘vótrocínio’, ‘paitrocínio’. Um dá chuteira, outro paga a passagem. Somos uma família humilde e a gente faz o que pode”, ressalta. 

Para manter viva a esperança, Maurício gastou toda a pensão recebida pela previdência social por um acidente trabalhista, que o fez perder parte do dedo no fim do ano passado. Se não bastasse isso, a viagem para BH poderia também lhe custar o seu benefício. “Eu tinha uma perícia para avaliar a situação do meu dedo. Expliquei a situação e me disseram que a consulta passaria para sexta-feira. Pode ser que eu tenha que ficar aqui até lá e perca de novo a data”.

Maurício volta ao muro para ver os minutos finais da “peneirada”. A avaliação chega ao fim e, com a adrenalina mais baixa, seguimos conversando sobre tudo o que rodeava aquele dia. Em um rápido instante, ele não se segura e desaba. Com a fala embolada e com os olhos marejados, era notável que existia algo muito além daquele teste. “Tive um final de ano complicado”, recorda. Exatos sete dias após perder parte do seu dedo. Maurício descobrira que sua mãe estava muito doente. Um câncer nos rins havia sido detectado. O estado era terminal e um mês depois ela faleceu, não sem antes fazer uma importante promessa: iria comprar uma chuteira para o seu neto.

Em virtude da velocidade arrebatadora que evoluiu a doença, não foi possível que ela realizasse seu desejo. Honrando a promessa, Maurício e seu pai compraram, com a pensão recebida, a chuteira, a mesma que Guilherme utilizava naquela tarde. Aquelas palavras me atingiram em cheio. Apertei as mãos de Maurício. Desejei sorte, sabendo que já era impossível manter qualquer tipo de imparcialidade. Também passei a torcer por aquele menino. Dias depois, saiu o resultado da seletiva. Victor e Guilherme foram reprovados. A concorrência era muito forte. 

Os anos passarão, mas a esperança daquelas famílias se manterá viva no muro da Toca I e em outros lugares, para que Guilherme e Victor sigam atrás do sonho de serem jogadores de futebol. E, talvez consigam, quem sabe em um novo teste nos gramados da Toquinha.

Guilherme e o pai Maurício na Toca I: em busca do sonho de ser jogador de futebol
*Matéria originalmente publicada na edição 118 da Revista do Cruzeiro.

terça-feira, 30 de julho de 2013

Fome Zero



Com início promissor na equipe profissional, Vinícius Araújo aposta no
apetite 
por gols para seguir chamando atenção no Cruzeiro

por Gustavo Aleixo



Fotos:
Bruno Senna 


Ele está com fome de bola. Natural de João Monlevade, no interior de Minas Gerais, Vinícius Araújo tem 20 anos, é do tipo caseiro, que come pelas beiradas, mas que em campo é imparável, principalmente dentro da área. Com o dom para marcar gols de tudo quanto é jeito, desde pequeno Vinícius mostrou ser um artilheiro nato. Nem que fosse nas peladas disputadas ao lado do pai ou nas aulas de educação física, o camisa 30 estava sempre pronto para colocar a bola na rede.

Tamanho talento fez com que o garoto desembarcasse, em 2007, em Belo Horizonte aos 13 anos e começasse a trilhar sua carreira no Cruzeiro. De maneira meteórica, a jovem promessa ascendeu aos profissionais este ano e já marcou seu primeiro gol no Mineirão. Seguindo a velha máxima de que “atacante que não faz gol morre de fome”, Vinícius que vencer no futebol, nem que para isso tenha que “ir para o almoço pensando no jantar”. Bom de papo, o centroavante falou à Revista do Cruzeiro sobre sua adaptação na equipe profissional e contou um pouco sobre sua vida fora dos campos, que de uns tempos para cá mudou, e muito.

Você nasceu em João Monlevade, cidade com pouco mais de 70 mil habitantes. Como foi a sua infância por lá?
Minha infância foi muito boa. Sempre ia para o clube com meus amigos. Na escola, minhas notas não eram das melhores, mas era o suficiente para passar [risos]. Com 10, 11 anos, eu também ia para a oficina do meu pai, mas ficava mais brincando de trabalhar do que ajudando. Tenho um irmão de 16 anos, o Gustavo, e uma irmãzinha de 1 ano e 6 meses, a Bianca. Ela é a minha inspiração. Sempre que faço gols dedico a ela.

Como você entrou no futebol?
Comecei nas escolinhas da minha cidade e sempre ia com o meu pai aos jogos dele. Ficava por lá e se não tivesse uma bola para brincar, eu pegava uma garrafa de um litro para chutar. Foi um interesse que surgiu desde cedo.

Seu pai era volante. Ele era bom de bola?
Ele é canhoto né? Falam que todo canhoto é diferenciado. No caso do meu pai, ele tem um estilo de jogo mais clássico, bate muito bem na bola e costuma até fazer uns golaços. Ele fala que me ensinou a jogar bola.

Então nas peladas vocês formam uma boa dupla.
Quando estou no time dele eu falo: “Pai, faz sua parte atrás que na frente eu faço a minha” [risos]. Quando a gente joga junto, o nosso time sempre sai vencedor nas peladas.

Você saiu de casa muito novo para jogar na base do Cruzeiro. Como foi chegar na cidade grande tão cedo?
Minha mãe ficou naquela insegurança. No começo foi muito difícil, mas, graças a Deus, sempre fui muito trabalhador e nunca deixei de acreditar no meu sonho.


Adaptado à BH, você foi se destacando até chegar o ano de 2012, quando começou a chamar a atenção da mídia.
Com o trabalho da base evoluindo e os jogos passando na televisão, eu estava sendo mais visado. Tinha jogo que eu passava em branco, aí na partida seguinte já tinha que marcar dois gols. Foi bom eu ter passado por tudo isso. No profissional a cobrança é maior e é sempre bom você desde cedo se acostumar com isso.

Foi na categoria de base que você aprendeu a dar entrevista?
[Risos] Verdade. O bom é que fui treinando. Na base, a gente dá um pouco de entrevista, mas não é igual no profissional. Gosto de ler livros e jornais para na hora das respostas não falar bobagem, porque depois você acaba virando até alvo de brincadeira dos colegas.

Você subiu ao profissional e não demorou muito para você fazer o seu primeiro gol. Como foi?
Foi muito emocionante. Na época, estava passando na TV [Globo] aquela novela O Profeta. Lembro que, antes da partida, eu tinha falado com o Elber que se eu entrasse iria fazer um gol. Acho que profetizei nesse jogo aí. [risos]

A camisa desse jogo ainda está guardada?
Está em um quadro lá em casa. Aquela camisa não vendo por nada. Nem para o meu pai eu vou dar. [risos]

Como é andar na rua como um jogador profissional?
No começo é estranho, porque você não está acostumado. Mas falo que o sonho da gente que vem da base sempre foi dar um autógrafo, tirar uma foto, ser reconhecido na rua. Então é um prazer poder viver isso hoje.

Fiquei sabendo que você tem até fã-clube agora.
Isso começou agora. [risos] No meu aniversário, umas meninas já vieram aqui [na Toca II] e fizeram um bolo para mim. Fico muito feliz com esse carinho e o que posso fazer agora é retribuir com gols.

Em 2013, o Cruzeiro comemora os 10 anos da Tríplice Coroa. O que você lembra daquele time, que tinha também vários atletas da base?
A primeira coisa que me vem à cabeça é o Alex, que é uma referência para todo mundo. É um cara fora de série, tanto dentro quanto fora de campo. Em 2003, também tinha muitos jogadores formados no Clube, então acho que a gente tem que levar esse fato como incentivo para que façamos também uma grande temporada.

*Matéria originalmente publicada na edição 118 da Revista do Cruzeiro.