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terça-feira, 9 de junho de 2015

São as águas de maio




por Saulo Assunção

“De médico e louco, todo mundo tem um pouco”. Mas existe também outra coisa que aparentemente qualquer pessoa pode fazer: ser comentarista de futebol. E em meio a tantos argumentos, tantas rodas de conversas e discussões, um assunto é recorrente entre aqueles que gostam de falar sobre o esporte mais popular do mundo: o futebol é corrupto. 

Presidente da Fifa entregou cargo, pouco tempo após reeleição
Existem alguns que proferem tal frase por motivos mais superficiais - um impedimento mal marcado, um pênalti duvidoso ou um cartão vermelho exagerado já são razões, de sobra, para levantar suspeita. Há também aqueles que fazem essa afirmação e relembram de casos, como o de manipulação de resultados no Campeonato Brasileiro de 2005. Todos estão corretos. O futebol sempre esteve imerso num sistema de corrupção, propinas e subornos, mas que agora está sendo descoberto e relatado a todos.

Imagine um rio enlameado, de águas escuras, no qual você mexe no fundo e todas as sujeiras, lixos, paus e folhas mortas vêm à tona. É exatamente isto que está acontecendo com a Federação Internacional de Futebol (Fifa) e os dirigentes envolvidos em seus escândalos. A Fifa sempre foi um leito turvo, com águas caudalosas, mas silenciosas. Com segredos escondidos a cada meandro. Entretanto, alguém resolveu revirar essas águas imundas.

José Maria Marín segue preso
A intervenção dos Estados Unidos e as investigações feitas pelo país são um alento para o futebol mundial. Mandatários e diretores de grandes empresas de marketing esportivos estão presos ou sendo procurados. Peixes grandes do futebol mundial. E pouco importa se os americanos têm segundas ou terceiras intenções nas buscas, pois toda vez que lembro que José Maria Marin está preso, eu os agradeço. Quando vejo empresários e comandantes de federações se entregando à polícia, eu vibro, como um pescador ao encontrar um peixe preso em suas redes. Quando me recordo que Joseph Blatter não comandará mais a entidade máxima do futebol, um sorriso surge em meu rosto.

Mas não nos deixemos enganar, a Fifa não será uma entidade limpa daqui pra frente e muito menos será comandada por pessoas de índole indiscutível. Isto é história de pescador. Não existem santos nessa história. Quem quer que esteja envolvido com a Federação, ou está no esquema ou é cúmplice dele. Cabe aos responsáveis apurar as verdades e tirar proveito da situação calamitosa. Ainda tem muito cartola solto por aí. Gente que não consegue mais dormir direito, morrendo de medo de abrir a porta ou de atender o telefone. A isca está balançando e a rede foi jogada. Mais cabeças vão rolar.

Enquanto isso, o futebol respira um pouco mais aliviado.

(Se cuida, CBF!)


terça-feira, 2 de junho de 2015

Azar para uns, sorte para outros



Por Saulo Assunção


Em meio a denúncias, prisões e renúncias no cenário internacional do futebol (depois escreverei mais sobre isso), dirigentes do Cruzeiro, na tarde desta terça-feira, se reuniram com o, até então, técnico celeste, Marcelo Oliveira, para definirem o futuro do treinador no clube. É de fato e conhecimento de todos que a equipe azul não vem apresentando o mesmo futebol que encantou e conquistou o Brasil nas duas últimas temporadas. Mudanças na base do time, venda das principais peças – e de alguns coadjuvantes que pareciam nem tão essenciais, mas que hoje deixam o torcedor cruzeirense com saudade – e uma fraca reposição de elenco fizeram com que o atual bicampeão brasileiro caísse vertiginosamente de produção.

O plantel forte dos dois últimos anos se tornou frágil e vulnerável, com jogadores que antes exerciam a função de compor elenco se tornando titulares absolutos. As contratações prometidas pela diretoria para repor os atletas vendidos não chegaram ou não foram à altura dos que foram negociados. O que chegou, de fato, foi a conta de Marcelo Oliveira - sem ao menos ele ter solicitado. Após o fiasco no Campeonato Mineiro, a vexatória desclassificação em casa na Libertadores da América e o pior início do Cruzeiro em campeonatos brasileiros na era de pontos corridos, Marcelo não resistiu.

Marcelo Oliveira deixa o clube com o excelente aproveitamento de 68,4% (Gualter Naves/Light Press)

Não resistiu ao carma do futebol brasileiro de creditar ao técnico grande parte do sucesso ou insucesso de um time. Levanto a seguinte questão: cabe somente ao técnico a responsabilidade pelos resultados obtidos? Claro que não! Irei focar meu raciocínio naquele que é o aspecto primordial dentro do futebol, no caso, os jogadores.

Muito do que acontece em campo é fruto da capacidade, dedicação e empenho dos atletas. Cabe também nesta lista - acredite ou não - a tal da sorte. Então, por que tantos técnicos caem sem ao menos completar um ano no cargo de uma equipe brasileira? Simples. É muito mais fácil demitir uma única pessoa do que reformular um elenco na metade do ano. Marcelo Oliveira foi vítima do sistema administrativo de futebol patético que é praticado no Brasil, onde é aparentemente inviável manter um plantel qualificado por mais de dois anos, seja pelo assédio das propostas do exterior ou pelo simples fato que, para se fazer um time campeão, é preciso endividar o clube até o pescoço.
Luxemburgo será o substituto de Marcelo no Cruzeiro
(Site Oficial de Vanderlei Luxemburgo)


O Cruzeiro demitiu um dos mais qualificados e capacitados técnicos do país. Me impressiona, ainda mais, ver torcedores do time celeste agraciados com a saída do treinador. Sim, aquele mesmo que deu dois títulos nacionais para a equipe mineira nos dois últimos anos. Nem mesmo os impressionantes 68,4% de aproveitamento fizeram Gilvan de Pinho Tavares, presidente do clube mineiro, mudar de ideia. Agora, quem reassume o comando cruzeirense é Vanderlei Luxemburgo, que após começar a temporada - sabe-se lá por que - em alta no Flamengo, foi demitido semana passada, ampliando a sua sequência de trabalhos ruins em grandes equipes brasileiras, fato que tem se repetido há um bom tempo.

Marcelo Oliveira se foi, mas Marquinhos, Manoel, Mena, Willian e outros mais ficaram. Azar do Cruzeiro, sorte de quem contratar Marcelo.