sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Mamma África

   
       Com um passado de superação, o camaronês Arnold agora só pensa em brilhar
com a camisa do Cruzeiro e trazer sua família para o Brasil 

Por Gustavo Aleixo




Fotos: Bruno Senna


Sobre seus olhos, ela adormece. Imóvel, aquela bola podia ser o mundo do garoto que dirige seu olhar para onde tudo começou. Camaronês, Arnold Gaston Meveng, de 17 anos, é mais um filho da África. A bola, que agora ele domina com primazia, sem deixá-la cair, nada mais é que uma metáfora para um menino africano que, como tantos outros, nasceu pobre e teve que se equilibrar em uma corda bamba, amarrada entre um presente cruel e um futuro repleto de incertezas. 

Ao lado de seis irmãos e três irmãs, a vida em Yaoundé, capital camaronesa, escancarava uma realidade repleta de mazelas, comuns a um continente que ainda exibe a olhos vistos as cicatrizes de um abandono quase que total. Naquela curta infância, o futebol jogado nas ruas era uma anestesia para o garoto que desde cedo deixou de ser criança para se tornar homem.

Talentoso, a bola lhe caíra bem. Com a sua perna esquerda, as peladas disputadas sob o forte sol africano lhe dariam a primeira chance de mudar o seu destino. Aos 11 anos, ele saiu de seu país para buscar reconhecimento em terras distantes. O caminho apontava para a cidade de Palma de Mallorca, na Espanha, onde ele passaria a treinar nas categorias de base do Mallorca, equipe que anos depois revelaria para o mundo o maior ídolo africano de Arnold: o compatriota Samuel Eto’o. “É um cara que quero seguir não apenas em campo, mas também nas atitudes e no comportamento. O Eto’o é um exemplo para a África e está sempre ajudando as pessoas em Camarões”, revela.

A sorte que Eto’o teve no clube espanhol não foi a mesma de Arnold. Ainda muito jovem, o garoto teve seus sonhos frustrados e voltou para seu país. No entanto, o retorno à África seria breve. “Um empresário, Fabrício Zanello, me viu jogar um campeonato em Camarões. Ele gostou do meu futebol e me trouxe para o Olé Brasil [equipe de Ribeirão Preto-SP]. Quando cheguei ao Brasil pensei: ‘Que país maravilhoso!’”

A alegria logo se transformou em hesitação. Passados quatro dias no Brasil, Arnold adoeceu. Sem saber falar português, ele teve medo, mas voltar para a África já não era mais uma opção. “Liguei para a minha mãe falando que eu queria ir embora. Meu pai disse que não. Falou como era a situação lá em Camarões e que eu tinha que ficar”, relembra.

Assim, Arnold teve que aprender a se comunicar. Na companhia dos brasileiros, as primeiras palavras pronunciadas não orgulham muito o garoto africano. “O que aprendi primeiro foram os palavrões [risos]. O pessoal brincava muito comigo, falava que eu só xingava. Mas com a ajuda da internet, da televisão e dos meus companheiros, fui me adaptando. Até sambar eu já sei [risos]”, conta ainda em um português cheio de sotaque. Ambientado ao novo país, Arnold se destacou no Olé Brasil e acabou chegando ao Cruzeiro em novembro de 2010. Depois de William Andem, goleiro camaronês que defendeu a meta celeste entre os anos de 1994 e 1996, o Maior de Minas voltava a contar com um jogador africano. 

Desde a sua chegada, a agora jovem promessa estrelada vem evoluindo, já tendo sido convocado para as equipes sub-17 e sub-20 dos Leões Indomáveis, apelido emblemático da seleção de Camarões, que também traduz muito bem o futebol de Arnold em campo. Dentro das quatro linhas, o jogador, que carrega nos punhos as cores de Camarões, mostra suas presas e demarca seu território não apenas como um rápido lateral-esquerdo, mas também em outras posições, como volante e meio-campista. 

Tendo como tutores no Brasil os técnicos da Raposa e em Camarões ninguém menos que Roger Millar, maior ícone do futebol camaronês, Arnold, hoje titular da equipe juvenil celeste, quer um dia trazer sua família para Belo Horizonte e pôr fim à distância que ainda o incomoda muito. “Converso com meus pais três vezes por semana pela internet, mas é sempre algo difícil. A internet em Camarões não é barata. Eles vão à lan house e pagam caro para conversarem comigo”, ressalta.

Para ter sua família por perto, Arnold quer seguir mudando seu destino. De uma infância pobre em Camarões, ele já mudou bastante coisa em sua vida. Com o sorriso no rosto de quem encara as dificuldades como um rito de passagem para dias melhores, o jovem craque rascunha nos gramados o conto de um menino que podia estar esquecido na África, mas que agora quer marcar seu nome na história do Cruzeiro e ser lembrado por toda uma Nação Azul.

*Matéria originalmente publicada na Edição 119 da Revista do Cruzeiro

Um comentário:

  1. Sorte pra ele no maior de Minas e q tenha muito sucesso e nos traga muitas alegrias.

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